O ano de 2026 começa com um sinal mais animador para a construção civil brasileira. Após um 2025 de crescimento moderado, o setor deve acelerar o ritmo, impulsionado pelo início do ciclo de queda dos juros, pelo reforço no crédito habitacional e por novos investimentos em infraestrutura.
A projeção é da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que estima crescimento de 2% em 2026 — o terceiro ano consecutivo de alta. A avaliação foi apresentada durante a divulgação do desempenho econômico da construção em 2025 e das perspectivas para o próximo ano, em coletiva realizada nesta quarta-feira (11/02).
Apesar do cenário mais favorável, o setor ainda convive com desafios estruturais que exigem atenção estratégica das empresas.

O cenário: desaceleração em 2025 e expectativa de virada
Depois de crescer cerca de 4,2% em 2024, a construção perdeu fôlego em 2025. Segundo dados do PIB, o setor avançou 1,7% até o terceiro trimestre do ano, na comparação com igual período de 2024. No consolidado do ano, o crescimento ficou próximo de 1,3%.
Esse desempenho refletiu um ambiente monetário restritivo, com juros elevados e crédito mais caro. A consequência foi uma desaceleração gradual da atividade.
Para 2026, no entanto, o contexto começa a mudar. Entre os principais fatores que sustentam o otimismo da CBIC estão:
- Início do ciclo de redução da taxa de juros
- Orçamento recorde para habitação financiada pelo FGTS
- Novas contratações do programa Minha Casa, Minha Vida
- Implementação de novo modelo de financiamento com recursos da poupança
- Ampliação do limite de financiamento no Sistema Financeiro da Habitação (SFH)
- Avanço dos investimentos em infraestrutura
Além disso, o programa Reforma Casa Brasil deve injetar cerca de R$ 40 bilhões no setor, ampliando a demanda por obras e serviços.
Segundo a economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, a expectativa é clara: mais crédito disponível e maior dinamismo no mercado imobiliário.
O que ainda preocupa o empresário da construção
Se por um lado há sinais positivos, por outro os gargalos continuam pressionando as margens.
A sondagem da construção, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com apoio da CBIC, aponta três principais problemas:
- Elevada carga tributária
- Juros ainda altos
- Escassez e alto custo da mão de obra qualificada
O presidente executivo da CBIC, Fernando Guedes Ferreira Filho, destacou que a carga tributária passou a ser a principal preocupação do empresário, especialmente diante das incertezas relacionadas à Reforma Tributária e às mudanças em obrigações acessórias e incentivos fiscais.
Além disso, os custos continuam pressionando o setor. Em 2025:
- O INCC acumulou alta de 5,92%
- O IPCA ficou em 4,26%
- A mão de obra subiu expressivos 8,98%
Ou seja: o custo de construir cresceu acima da inflação oficial, impactando diretamente o planejamento financeiro das empresas.

Emprego e consumo de insumos seguem como pontos fortes
Mesmo em um ambiente desafiador, a construção manteve geração de empregos e demanda por insumos.
Em 2025, o setor encerrou o ano com 2,9 milhões de trabalhadores com carteira assinada, crescimento de 3,08% frente a 2024. O segmento de construção de edifícios liderou a expansão.
Desde 2020, a construção civil criou 886.709 empregos formais — um dado relevante em termos de impacto econômico e social.
Outro indicador positivo foi o consumo de cimento, que alcançou 66,9 milhões de toneladas, alta de 3,68% em relação a 2024. O número mostra que, apesar da desaceleração, a atividade não parou.
No entanto, a confiança empresarial apresentou queda ao longo do ano, o que acende um alerta. Segundo Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, quando a baixa confiança se prolonga, ela afeta decisões de investimento, produção e contratação.

Infraestrutura ganha protagonismo em 2026
O segmento de infraestrutura também desempenha papel estratégico na expectativa de crescimento.
Estimativas da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) indicam que os investimentos no setor podem ter alcançado R$ 280 bilhões em 2025, cerca de 3% acima do registrado em 2024.
Um dado relevante: 84% desses recursos vieram da iniciativa privada.
Esse protagonismo do capital privado tende a se manter, especialmente em concessões e parcerias público-privadas, o que reforça o potencial de geração de obras e contratos ao longo de 2026.
O que esperar de 2026?
A projeção de 2% de crescimento pode parecer modesta, mas carrega um significado importante: consolidação de três anos consecutivos de expansão.
Se o ciclo de queda de juros se confirmar e o crédito imobiliário ganhar tração, o setor pode acelerar de forma mais consistente no segundo semestre.
Ainda assim, será fundamental que as empresas:
- Reavaliem seus custos com mão de obra
- Invistam em produtividade e industrialização
- Planejem fluxo de caixa com cautela
- Monitorem impactos da Reforma Tributária
O cenário é mais positivo, mas exige gestão técnica e financeira rigorosa.
A construção civil entra em 2026 com expectativas mais sólidas do que em 2025. Crédito ampliado, investimentos em infraestrutura e programas habitacionais fortalecidos criam um ambiente mais favorável para o crescimento.
A projeção de alta de 2% da CBIC reforça que o setor segue resiliente — mesmo diante de juros elevados, carga tributária pesada e pressão de custos.
Para empresários e gestores, o momento é de atenção estratégica: aproveitar o ciclo de melhora do crédito, mas sem negligenciar riscos estruturais.
Se o cenário macroeconômico colaborar, 2026 pode marcar o início de um novo ciclo mais consistente de expansão para a construção brasileira.
Reportagem: Eng. Fabrício Rossi – 12 Fev 2025 – Belo Horizonte – MG