Uma obra orçada em R$ 100 mil no fim de 2019 precisaria de aproximadamente R$ 165,4 mil em julho de 2026 caso seu custo acompanhasse exatamente a evolução do INCC-M. Esse exemplo simples mostra a dimensão de uma mudança que alterou orçamento, viabilidade e margem de praticamente todo o setor da construção.
Entre o início de 2020 e o fim de 2025, o Índice Nacional de Custo da Construção – Mercado (INCC-M), calculado pela FGV IBRE, acumulou aumento próximo de 58%. Incluindo os 4,70% registrados entre janeiro e julho de 2026, a alta composta chega a aproximadamente 65,4%.
Para o engenheiro, porém, o dado mais importante não está apenas no percentual acumulado. Está na mudança do problema: durante a pandemia, materiais e suprimentos tiveram papel decisivo na pressão sobre os custos. Em 2026, a mão de obra passa a ocupar posição de destaque.
De 2020 a 2022: o choque que mudou o patamar dos custos
O primeiro movimento aparece claramente nos números. O INCC-M fechou 2020 com alta de 8,66% e acelerou para 14,03% em 2021, maior variação anual do período. Em 2022, mesmo com desaceleração, o índice ainda avançou expressivos 9,40%. Os resultados são oficiais da FGV IBRE.

- 2026 corresponde ao acumulado de janeiro a julho.
Foi um período particularmente difícil para quem elaborava orçamento executivo. A pandemia atingiu cadeias produtivas, transporte, fornecimento e disponibilidade de diversos insumos ao mesmo tempo. Em muitas obras, um orçamento elaborado poucos meses antes já não representava adequadamente o custo no momento da contratação.
O efeito composto é importante. Somar simplesmente as taxas anuais não mostra o impacto correto, porque cada aumento incide sobre uma base que já ficou mais cara.
Por isso, R$ 100 mil corrigidos pela trajetória do INCC-M desde o fim de 2019 chegariam a aproximadamente R$ 158 mil no fim de 2025. Até julho de 2026, o valor equivalente sobe para cerca de R$ 165,4 mil.
Isso não significa que toda obra brasileira ficou exatamente 65,4% mais cara. Cada empreendimento possui tipologia, localização, sistema construtivo, produtividade e composição de custos próprios. O INCC-M funciona como uma referência importante para compreender a direção e a intensidade da inflação do setor.
2023 trouxe alívio, mas o custo não voltou ao passado
Em 2023, o INCC-M caiu para 3,32%, uma desaceleração forte diante dos resultados dos três anos anteriores. O problema é que desacelerar não significa devolver os aumentos acumulados.
O preço continuou subindo, apenas em ritmo menor.
Essa diferença parece óbvia, mas é fundamental em estudos de viabilidade. Uma inflação menor não leva o orçamento de volta ao nível de 2019 ou 2020. O setor passou a trabalhar sobre uma base de custos estruturalmente mais elevada.
E a tranquilidade durou pouco.
Em 2024, o INCC-M voltou a acelerar e terminou o ano em 6,34%. Em 2025, permaneceu praticamente no mesmo patamar, acumulando 6,10%.
Para o engenheiro que trabalha com empreendimentos de 18, 24 ou 36 meses, isso representa muito dinheiro. Uma diferença de poucos pontos percentuais, quando aplicada repetidamente sobre contratos, serviços e compras relevantes, pode consumir rapidamente parte da contingência prevista na viabilidade.
Em 2026, o alerta vem da mão de obra

Até julho de 2026, o INCC-M acumulava 4,70% no ano e 6,40% em 12 meses. Somente em julho, a alta foi de 0,62%.
O detalhe mais importante está na composição do índice.
Nos 12 meses encerrados em julho, o grupo de Materiais, Equipamentos e Serviços acumulava 5,93%, enquanto a Mão de Obra avançava 7,06%. No próprio mês de julho, mão de obra subiu 0,93%, contra 0,40% de Materiais, Equipamentos e Serviços.
Para quem está no campo, isso muda a estratégia.
Durante o pico de preços dos materiais, parte importante da gestão estava concentrada em negociação com fornecedores, antecipação de compras, substituição técnica de determinados insumos e redução das perdas.
Quando a pressão se desloca para mão de obra, a produtividade passa a pesar ainda mais.
Se uma equipe custa mais por hora, desperdícios de tempo, retrabalho, espera por material, falhas de projeto e baixa organização do canteiro ficam proporcionalmente mais caros. Não basta negociar o salário ou o contrato do empreiteiro: é preciso produzir melhor com as horas disponíveis.
O que muda no orçamento e no planejamento das obras

O histórico dos últimos seis anos deixa algumas lições práticas para o engenheiro.
A primeira é evitar orçamentos com validade indefinida. Uma composição de custo representa um determinado momento de mercado. Quanto maior o intervalo entre orçamento, contratação e execução, maior precisa ser a atenção à atualização dos preços.
A segunda é separar as principais fontes de risco. Material, equipamento, serviço e mão de obra não necessariamente avançam na mesma velocidade. Em julho de 2026, por exemplo, a diferença entre a inflação de mão de obra e a de Materiais, Equipamentos e Serviços já ultrapassava um ponto percentual em 12 meses.
A terceira é acompanhar custo realizado versus custo orçado durante toda a obra. Descobrir o desvio apenas quando o empreendimento já consumiu 70% ou 80% do orçamento deixa pouco espaço para correções.
Por fim, planejamento e orçamento precisam conversar. Comprar antecipadamente pode proteger determinado preço, mas também exige caixa, armazenamento e controle de estoque. Postergar uma contratação pode preservar capital no curto prazo, mas expor a obra a preços maiores posteriormente.
Não existe uma solução única: existe decisão baseada em dados.
O que esperar daqui para frente?
Os dados até julho não permitem afirmar qual será o INCC-M fechado de 2026. A próxima divulgação, referente a agosto, está programada pela FGV IBRE para 26 de agosto de 2026.
O cenário atual, porém, deixa um sinal importante: depois da excepcionalidade de 2020 a 2022 e do forte arrefecimento em 2023, a inflação da construção voltou a circular próxima de 6% em 12 meses.
Para o engenheiro, a consequência prática é clara. Trabalhar esperando uma volta automática aos custos pré-pandemia pode gerar orçamento subestimado e prejuízo.
A resposta está em atualizar bases de preço, medir produtividade, revisar contratações, acompanhar índices e identificar desvios enquanto ainda existe tempo para agir.
Conclusão
De 2020 a julho de 2026, o INCC-M mostra uma transformação profunda no custo de construir no Brasil. Uma referência de R$ 100 mil passou para aproximadamente R$ 165,4 mil quando corrigida pela evolução acumulada do índice.
Mas o problema de 2026 não é exatamente o mesmo da pandemia.
Hoje, a mão de obra avança mais do que o conjunto de materiais, equipamentos e serviços, reforçando um ponto que deve ganhar cada vez mais espaço no planejamento: produtividade também é controle de custo.
O engenheiro que acompanha apenas o preço do cimento, aço ou concreto pode estar olhando para apenas uma parte do problema. Em um mercado com margens pressionadas, controlar horas improdutivas, retrabalho, logística e sequência executiva pode representar a diferença entre cumprir o orçamento e descobrir o prejuízo tarde demais.
Fonte principal: Fundação Getulio Vargas — FGV IBRE, Índice Nacional de Custo da Construção – Mercado (INCC-M).
Por: Eng. Fabrício Rossi – Agosto 2026 – InfoConstrução