A etapa de quantitativo sempre foi vista como um trabalho braçal: projetos, escalímetro, calculadora, conferência e mais conferência.
Sempre costumo dizer nas palestras e eventos, que na minha opinião e em pesquisas. Esta etapa é responsável por 80% dos erros, principalmente de quem está começando na área.
Quem já fez isso de verdade sabe que não é difícil, mas é trabalhoso, principalmente quando não se tem todos os projetos e um escopo bem detalhado.
“A maior barreira sempre foi prever sem ter experiência de campo”.
O quantitativo exige que você antecipe o método construtivo da empresa, e isso pode variar muito de uma obra para outra e, principalmente, ser bem diferente da teoria que você deveria ter aprendido na faculdade.
Nos últimos meses, tenho observado a inteligência artificial entrar nesse cenário. E junto com ela, veio uma pergunta que eu escuto quase toda semana:
“Dá para fazer quantitativo usando IA?”
A resposta: sim.
A resposta correta é: depende de quem está usando.
Neste artigo, eu vou te mostrar:
- o conceito de quantitativo com IA;
- o método correto de usar IA sem errar;
- e a aplicação prática, do jeito que funciona na minha visão sobre o tema.
Sem milagre, sem promessa vazia e sem substituir o Engenheiro de Custos. link: www.engenheirodecustos.com.br

1. IA não faz quantitativo sozinha, por enquanto.
Vamos começar deixando isso bem claro.
IA não entende de obra, pelo menos, não por enquanto…
IA não sabe o que é critério de medição, não conhece as bases que utilizamos: SINAPI, TCPO, nem sabe o que é erro de projeto, como entregamos projetos atrasados e sem conferir muita coisa na prática que vivenciamos no Brasil…
O que a IA faz muito bem é:
- organizar informação;
- acelerar processos;
- comparar dados;
- repetir padrões.
Ou seja, ela é uma ferramenta, não um Engenheiro de Custos.
Se você não entende quantitativo, usar IA, não vai resolver o problema.
Na prática, ela só irá fazer você errar mais rápido.
E isso é bem perigoso, porque quantitativo errado vira:
- orçamento estourado com obra com prejuízo;
- compra de insumos a mais ou a menos;
- problema direto no seu bolso.
Então o conceito é simples para não errar:
👉 primeiro vem o critério técnico, a base de orçamentos bem elaborada, depois vem a IA.
2. Como usar IA no quantitativo da maneira correta
Aqui está o ponto que quase ninguém explica.
Usar IA no quantitativo não é “jogar a planta no sistema e esperar o número sair”.
Isso não funciona na prática, principalmente sem um projeto executivo bem elaborado.
O método correto tem três etapas bem claras.

Etapa 1 – O engenheiro define o critério
Antes de qualquer IA entrar em cena, você precisa responder perguntas básicas:
- Qual critério de medição eu vou usar?
- Vou descontar vãos? A partir de qual área?
- Estou considerando qual tipo de fundação?
- Tenho ou não projeto estrutural?
- O que é estimativa e o que é medida real?
- Quais dados eu possuo, perímetro, etc..
Isso é exatamente o que a gente aprende no quantitativo tradicional.
A IA não decide isso por você.
Quem decide é o engenheiro.
Etapa 2 – A IA aplicada para acelerar
Depois que o critério está definido, a IA vira uma aliada muito forte.
Ela pode ajudar em:
- organização e leitura dos ambientes;
- repetição de cálculos;
- conferência de áreas;
- simulação de cenários;
- estruturação de planilhas;
- Estimativas de esquadrias, revestimentos com base no seu conhecimento.
Por exemplo:
Você já sabe como calcular alvenaria, cobertura ou concreto.
A IA entra para agilizar, não para pensar no seu lugar.
Antes de calcular, será necessário dar o contexto, e o contexto correto será a diferença entre acertar e errar feio com IA.
Etapa 3 – Conferência técnica continua sendo humana
Esse ponto é fundamental.
Mesmo usando IA, a conferência é do Engenheiro de Custos.
Na prática, eu sempre faço a revisão com estas três perguntas no final:
- Esse número faz sentido para a obra? Tenho parâmetros de obras anteriores para correção mais rápido?
- Está compatível com a tipologia da construção? Aqui posso usar alguns números e índices de orçamentos anteriores: kg de armadura/ m3 de concreto de etapas de fundação e infraestrutura, um exemplo. Se fugir muito, tem que ser auditado.
- Se eu comprasse hoje os insumos estimados no orçamento, vou ter problema? Está coerente com meus índices de produtividade das minhas composições?
Se a resposta for “não tenho a menor ideia”, o problema não é a IA.
É falta de base técnica. É falta de lastro de quem está usando a tecnologia, simples assim.

3. Aplicação prática: quantitativo com IA na vida real
Vamos trazer isso para a realidade do campo da obra.
Imagine um orçamento sem projeto executivo, situação extremamente comum em:
- residências;
- obras de pequeno e médio porte;
- orçamentos comerciais e de reformas.
Você não tem projeto estrutural, hidráulico ou elétrico completo.
O que você faz?
Exatamente o que sempre foi feito:
- define premissas, escopo;
- usa estimativas técnicas;
- adota critérios realistas.
A IA entra para:
- organizar essas premissas e dar sugestões de ponto cego.
- montar cenários e estimativas;
- acelerar a quantificação do orçamento.
Fiz um vídeo onde mostro na prática, como é possível estimar por ambientes, pontos elétricos, hidráulicos, até mesmo esquadrias e revestimentos quando não se possuem todos os projetos. Assista por este link: https://www.youtube.com/watch?v=t_rmf5VxiwU
Mas quem decide se a broca tem 3 ou 5 metros é você. “E o laudo técnico, é claro”
Quem decide a seção da viga é você…
Quem decide o critério de cobertura é você…
A IA não assume responsabilidade técnica.
O Engenheiro assume e nestes casos, lembre-se que sempre estaremos olhando como uma estimativa de custos e não um orçamento executivo.
4. O maior erro de quem começa com IA no quantitativo.
Aqui vai um alerta importante.
O maior erro que eu vejo é o profissional pular a base e ir direto para a ferramenta.
Quer usar IA?
Ótimo.
Mas primeiro você precisa:
- saber calcular na unha;
- entender de onde vem cada número e cada memória de cálculo;
- saber onde normalmente dá erro e como finalizar o orçamento.
A IA não substitui isso.
Ela potencializa quem já sabe.
Conclusão: IA é vantagem competitiva para quem tem Base!
Quantitativo com IA não é “hype”.
É uma vantagem competitiva para quem sabe usar.
Quem domina quantitativo:
- ganha tempo;
- reduz erro;
- escala seus serviços;
- e se destaca no mercado.
Quem não domina ainda:
- fica refém da ferramenta;
- perde controle;
- assume riscos desnecessários
- erra mais rápido…
No final, vale a regra de ouro:
IA não substitui o Engenheiro de Custos…
Ela valoriza o engenheiro que sabe o que está fazendo.
Se você quer usar IA no quantitativo, comece pelo básico.
Entenda o método.
Domine o critério.
Depois, use a tecnologia a seu favor.
É desta maneira que estamos usando na prática.
E se quiser aprender a base, continue acompanhando os materiais desta página e pessoas mais experientes para encurtar o caminho.
Abraço e até o próximo artigo.
Eng. Gustavo Martins